Ao final do primeiro movimento, metade da plateia da Sala São Paulo chorava. Olhando para trás, eu via alguns disfarçando e outros pegando seus lenços, todos realmente comovidos. Esse é o tamanho da 6ª Sinfonia de Mahler – a “Trágica” – e a força de uma obra de arte realmente genial.
Mahler usou o nome “Trágica” referindo-se às tragédias da Grécia antiga, que apresentam um nobre herói lutando contra um destino implacável; depois de tribulações e lutas contra os limites de sua própria natureza humana, o protagonista chega à já anunciada queda.
Através de sua sexta, Mahler transpõe exatamente esse drama em música. Da maneira como os 3 principais temas do primeiro movimento se intercalam, e se desenvolvem intrinsecamente durante os épicos 20 minutos que parecem conter um mundo inteiro de ansiedade e sensações para explodir no atemorizante fechamento, até o triste movimento final que vai vagarosamente morrendo antes de ser interrompido por uma repentina e estrondosa fúria orquestral de um golpe só – que David Hurwitz expressa perfeitamente:
Enquanto os últimos vestígios do tema inicial do movimento se arrastam para o silêncio, um súbito e chocante estrondo apresenta o destino em sua forma mais devastadora até aqui. A esperança, Mahler parece dizer, é uma ilusão. Existe apenas a sina, e então o silêncio.
David Hurwitz em “The Mahler Symphonies”
Músicas como essa transcendem à nossa existência, e nos empurram cada vez mais próximos de sermos algo mais que simplesmente humanos. Elas definem o que é ser um gênio. Imagino como Mahler se sentia sobre suas obras…
Notas:
Essas poucas impressões são frutos do concerto do dia 19 de junho de 2010 da Osesp, com regência do dinamarquês Thomas Dausgaard. A execução da 6ª de Mahler, por sinal, contrastou-se com um enfadonho Concerto nº 26 para piano de Mozart – nenhuma culpa para o pianista Ricardo Castro, é simplesmente uma obra boba e previsível.
Para saber mais sobre Mahler, o artigo na Wikipedia é um bom começo. Já para uma mergulhada nas sinfonias, recomendo o livro de David Hurwitz sobre o assunto – não se deixe enganar pelo subtítulo besta.
Já para ouvir a 6ª, muitos recomendam as gravações de Bernstein; pessoalmente, gosto do ciclo de Michael Gielen, que é mais recente e portanto possui uma gravação tecnicamente superior.
PS: hesitei para escrever esse artigo, por algo que já falei no Twitter há algum tempo. Falar de música clássica sem parecer esnobe é difícil, talvez impossível, porém…
