Plano perfeito (como ser pequeno na verdade é ser grande)

Em 2005, quando eu entrava na faculdade, meu desejo e meu futuro pareciam definidos. Seguiria trabalhando e estagiando para pagar a faculdade e no último semestre do curso começaria a me candidatar a vagas de trainee nas mega-corporações que estão aqui na região de Campinas e ali em São Paulo. Pretendia usar meu diploma de técnico em informática e minha experiência com programação e design para focar em alguma vaga de uma empresa de TI — IBM, Motorola, Microsoft –, mas os dinossauros do consumo em massa não me escapavam da visão — Unilever, Tetra Pak, Ambev.

Nessa época, tinha uma visão bastante idílica de trabalhar em uma empresa grande e, apesar dos avisos de Scott Adams, acreditava muito no sucesso e na felicidade que poderia obter dentro de uma dessas empresas. O plano era tentador e brilhante: entrar como trainee com um salário de 3 mil reais, ter um plano de carreira, em dois anos ser efetivado como <alguma coisa> de marketing e ser feliz por um bom tempo com um salário gordo, benefícios e, por quê não dizer, o prestígio de ter passado por um processo de seleção assaz selvagem e conseguido chegar onde muitos queriam estar. E sempre pronto para subir na cadeia alimentar.

Sempre tive um censo crítico bastante aguçado e estaria mentindo se dissesse que eu não sabia das mazelas de se trabalhar em uma empresa grande, mas naquela época eu achava que era mais forte e superior a tudo aquilo; que eu não ligaria para a politicagem e a burocracia interna. No fundo, o que eu realmente acreditava, com meus 18 anos de ingenuidade, era que eu podia mudar tudo aquilo de dentro. Que eu podia ser o herói que mudaria uma gigante estacionada no século passado e a guiaria para o futuro. Eu era assim ingênuo.

Mas enquanto a hora da execução do meu plano perfeito não chegava, eu continuava trabalhando em pequenas empresas para bancar minha faculdade (e o resto da minha vida social, é claro). Fiquei cerca de 1 ano na Overplay, que na época tinha uns 12 funcionários. Depois, entrei para a Entermotion, onde estou até agora e que possui 5 funcionários.

Em ambas as empresas, o que aprendi foi o poder de ser pequeno. Claro que trabalhamos em um nicho e dominar o mundo (ou mais humildemente o nosso mercado de atuação) é impossível, mas pessoalmente e profissionalmente, a satisfação profissional e pessoal é inegável. Enquanto que em uma empresa grande você tem seu papel estritamente definido e sua rotina metodicamente traçada, em uma empresa pequena você não pode nem dizer com certeza o que fará semana que vem.

No começo do meu trabalho na Overplay, em 2005, eu nunca imaginei que seria um dos responsáveis pelo um rebranding da empresa em 2006. Nesse ano também, nunca imaginei que seria uma parte importante da comunicação da associação brasileira de desenvolvedoras de jogos. Era impossível prever simplesmente porque nós mesmos estávamos traçando a nossa história enquanto andávamos — e cada passo realmente fazia diferença no futuro.

Em uma empresa pequena, além de não ter uma rotina definida, tudo que você faz é crucial — não para seu chefe ou para seu departamento, mas para a empresa e o cliente. Os resultados de seu próprio trabalho estão lá, pra todo mundo ver e sentir. A Kontiki, por exemplo, é uma agência de viagem cliente da Entermotion que vende pacotes com destinos na América do Sul e América Central; no final do ano passado, eu fui responsável pelo desenvolvimento do novo site da empresa. Quando comecei, a empresa tinha apenas um escritório em Nova Iorque e queria expandir suas operações para Londres. Como o site é a forma majoritária de comunicação com os clientes e a principal ferramenta para organização interna das vendas e de prospecção da empresa, era inevitável a construção de um novo. Hoje, menos de 1 ano depois do começo do projeto, a Kontiki tem operações na Alemanha, Áustria e Suíça, e ainda terá três novos países contemplados em breve. E todas essas operações baseadas em software que eu planejei, escrevi e desenhei do zero. Dificilmente sentiria esse senso de realização e importância em uma empresa de centenas de funcionários e movida a relatórios anuais e intermináveis pesquisas de mercado.

Portanto, o que estou querendo dizer é que depois de muito tempo percebi que não vale a pena vender a alma para uma empresa grande. As pessoas que você não conhece direito podem até ficar impressionadas quando você falar que trabalha na Microsoft ou na Ambev, mas sua satisfação interior será muito maior em uma empresa pequena, onde você é um grande pilar de uma companhia — que muitas vezes será mais como uma família.

Parece que meu plano perfeito nunca verá a luz do dia. Ou talvez eu só precise atualizá-lo…

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