“Taxa de ressurreição” na São Paulo do séc. XIX

A cidade de São Paulo tem fama de ser uma das mais caras do mundo; em alguns índices até aparece como a mais cara das Américas. O Estadão tem um infográfico muito legal sobre o assunto, que explica os principais fatores do alto custo de vida.

Além de todos os aspectos modernos e lógicos apresentados pelo Estadão, acho que a cidade sempre teve uma tendência ao ônus. O Código de Posturas da Câmara Municipal de São Paulo, de 1875, por exemplo, tem uma passagem no mínimo interessante sobre uma “taxa de ressurreição” para os cemitérios da cidade:

Quando acontecer que na sala de observações volte à vida algum indivíduo levado ao cemitério como morto para ser enterrado, não sendo indigente, será obrigado a pagar ao administrator e coveiros a gratificação de 100$000, dos quais terá o primeiro a metade, e outra metade se repartirá igualmente pelos coveiros que fizerem vigília; sendo indigente, a gratificação será paga pela Câmara Municipal.

Descobri o trecho acima no livro São Paulo – Três Cidades em Um Século (no Google Books e na loja da editora.

Vacas adoram abacate

Vacas que comem abacate

Sempre aprendendo coisas novas…

Que país sairá dessas eleições?
Até desanima imaginar.

Luis Nassif sintetizou o que ando vendo e sentindo nessas eleições. A radicalização amoral e inconsequente promovida pela campanha de Serra realmente acordou monstros na sociedade Brasileira, e trouxe à tona preconceitos que eu, inocentemente, imaginava que não existissem mais. O ódio parece ter tomado conta de ambos os lados, e nada muito bom pode sair disso.

Quem quer que ganhe as eleições, o país já perdeu. E muito.

À falta de um projeto de país, esgotado o modelo no qual se escudou, FHC – seguido por seu discípulo José Serra – passou a apostar tudo na radicalização. Ajudou a referendar a idéia da república sindicalista, a espalhar rumores sobre tendências totalitárias de Lula, mesmo sabendo que tais temores eram infundados.

…as sementes do ódio frutificaram. E agora explodem em sua plenitude, misturando a exploração dos preconceitos da classe média com o da religiosidade das classes mais simples de um candidato que, por muitos anos, parecia ser a encarnação do Brasil moderno e hoje representa o oportunismo mais deslavado da moderna história política brasileira.

Em São Paulo esse clima está generalizado. Nos contatos com familiares, nesses feriados, recebi relatos de um sentimento difuso de ódio no ar como há muito tempo não se via, provavelmente nem na campanha do impeachment de Collor, talvez apenas em 1964, período em que amigos dedavam amigos e os piores sentimentos vinham à tona, da pequena cidade do interior à grande metrópole.

Os desdobramentos são imprevisíveis e transcendem o processo eleitoral. A irresponsabilidade da mídia de massa e de um candidato de uma ambição sem limites conseguiu introjetar na sociedade brasileira uma intolerância que, em outros tempos, se resolvia com golpes de Estado. Agora, não, mas será um veneno violento que afetará o jogo político posterior, seja quem for o vencedor.

Que país sairá dessas eleições?, até desanima imaginar.

Mas demonstra cabalmente as dificuldades embutidas em qualquer espasmo de modernização brasileira, explica as raízes do subdesenvolvimento, a resistência história a qualquer processo de modernização. Não é a herança portuguesa. É a escassez de homens públicos de fôlego com responsabilidade institucional sobre o país. É a comprovação de porque o país sempre ficou para trás, abortou seus melhores momentos de modernização, apequenou-se nos momentos cruciais, cedendo a um vale-tudo sem projeto, uma guerra sem honra.

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